Cenas de Supermercado
Quando eu passei no Pão de Açúcar para comprar um vinho, atrás de mim na fila chegou um bebum fim de carreira. Eu, na minha arrogância burguesa, olhei de soslaio com um arzinho superior e me voltei de novo para a frente. O bebum, imaginem, já estava de fogo e ainda trazia nos braços uma Pitu. Que vergonha... Ele mal conseguia se manter em pé e cambaleava de um lado para o outro enquanto esperava na fila, os olhos vermelhos de quem já passou da conta há muito. E enquanto eu me concentrava em dizer o CPF para contar pontos no meu Cartão Mais, ouvi bem perto o som de vidro se estilhaçando no mesmo momento em que algo molhado tocava meus pés. Ao mesmo tempo, o cheiro de álcool inundava o ar. Pobre bebum, deixou a garrafa cair e encarava os pedaços de vidro com o olhar desolado. Pobre bebum. E parado ali olhando ele ficou uns dois minutos, sem saber o que fazer. Eu também. Eu olhava para o bebum, para a garrafa partida no chão, novamente para o bebum e para a garrafa, enquanto me enchia de tristeza e de lágrimas. Eu me via nele, voltando para casa triste e cansada, imaginando que a alegria pudesse aflorar das taças de vinho que sonhava em tomar. Senti nele a pena de mim. A bebida se espalhava pelo chão do supermercado, todos os olhos voltados para aquela cena ridícula de um homem bêbado cabaleante vendo o seu sossego da noite esparramado no chão. Eles pensavam "que ridículo, bem feito seu vagabundo" com a mesma infame superioridade que eu sentia segundos antes. E que alívio senti quando o funcionário do supermercado deu-lhe um tapinha nas costas, dizendo "não foi nada" e entregando-lhe outra garrafa. Agradecido como um cão que recebe uma carícia, bebum sorriu, pagou e saiu. Igualzinho a mim.

