06 Fevereiro, 2010

Ano passado

O ano passado passou tão depressa que eu mal vi. Foi um ano de reencontro comigo. A crista da onda, dela eu não preciso. Consegui achar o caminho para me encontrar e encontrar as pessoas esquecidas, pessoas tão do meu lado que eu não via. Pouco antes do Natal, a vovó caiu. Foi no estacionamento do Conjunto, comprando futilidades domésticas, quase nos meus braços. Mas eu estava de costas guiando o caminho do carro e não pude segurar. Quando eu vi a minha véinha no chão, toda a força do mundo veio para os meus braços e eu a levantei sem esforço. A minha véinha virou uma bonequinha de louça, tão fácil de se quebrar. Foram segundos de um clarão de entendimento que me fez perceber que as pessoas se vão e eu estou por um triz de perdê-las. A minha véinha, o tio, meu irmão, estão todos tão aqui que esqueço que um dia podem não estar. Dói muito o coração perceber que as pessoas não duram para sempre. Agora eu não preciso cuidar de mim, a Ana arrogante, egocentrista e indiferente. Agora eu quero cuidar daqueles que me fazem ser o que restou de mim. Somente o bom do que restou de mim.

05 Outubro, 2009

Cenas de Supermercado

Quando eu passei no Pão de Açúcar para comprar um vinho, atrás de mim na fila chegou um bebum fim de carreira. Eu, na minha arrogância burguesa, olhei de soslaio com um arzinho superior e me voltei de novo para a frente. O bebum, imaginem, já estava de fogo e ainda trazia nos braços uma Pitu. Que vergonha... Ele mal conseguia se manter em pé e cambaleava de um lado para o outro enquanto esperava na fila, os olhos vermelhos de quem já passou da conta há muito. E enquanto eu me concentrava em dizer o CPF para contar pontos no meu Cartão Mais, ouvi bem perto o som de vidro se estilhaçando no mesmo momento em que algo molhado tocava meus pés. Ao mesmo tempo, o cheiro de álcool inundava o ar. Pobre bebum, deixou a garrafa cair e encarava os pedaços de vidro com o olhar desolado. Pobre bebum. E parado ali olhando ele ficou uns dois minutos, sem saber o que fazer. Eu também. Eu olhava para o bebum, para a garrafa partida no chão, novamente para o bebum e para a garrafa, enquanto me enchia de tristeza e de lágrimas. Eu me via nele, voltando para casa triste e cansada, imaginando que a alegria pudesse aflorar das taças de vinho que sonhava em tomar. Senti nele a pena de mim. A bebida se espalhava pelo chão do supermercado, todos os olhos voltados para aquela cena ridícula de um homem bêbado cabaleante vendo o seu sossego da noite esparramado no chão. Eles pensavam "que ridículo, bem feito seu vagabundo" com a mesma infame superioridade que eu sentia segundos antes. E que alívio senti quando o funcionário do supermercado deu-lhe um tapinha nas costas, dizendo "não foi nada" e entregando-lhe outra garrafa. Agradecido como um cão que recebe uma carícia, bebum sorriu, pagou e saiu. Igualzinho a mim.

17 Setembro, 2009

A Nova Crista da Onda


No final das contas, acho que o Igor estava certo e a nova da crista da onda está chegando. Eu me sinto bem... Estou tentando resgatar as minhas coisas: os MEUS livros, as MINHAS músicas, os MEUS amigos... Há algumas semanas, eu fiquei muito magoada e fui tomada por um imenso sentimento de solidão. Eu fiquei tão triste! Então, eu peguei A Insustentável Leveza do Ser e li pela terceira vez em três dias, ouvindo REM incessantemente. As MINHAS coisas. Estou tentando cuidar de mim. O sentimento de solidão foi apenas a constatação da verdadeira solidão em que eu já estava imersa, e isso deixou meu coração tão dodói... Estou me recompondo. E me sinto bem. Meu coração está se remendando, um pouco torto, é verdade, mas está dando conta sozinho. E eu estou tão suficiente! Acho que percebi uma faisquinha na minha alma. Será um princípio de incêndio? Tomara, tomara. Agora eu espero para ver. Há quanto tempo eu não esperava para ver? Eu andava querendo fazer acontecer, mas quando se está sozinho, só resta a paciência, que me é tão rara. Chegou-me uma calma tão profunda, uma quietude dos sentimentos, que às vezes me pego rindo sozinha. É, Igor, você estava certo... É a nova crista da onda.

30 Maio, 2009

Ama, bebe e cala?

Deve estar faltando alguma coisa, porque eu resolvi tomar um vinho para ver se sentia aquilo, aquele quentinho de bem estar gostoso que ele dá. E não senti... Já estou até meio tonta, mas aquilo não apareceu. Está tudo bem, minha vida está toda legal. Não tenho do que me queixar, mesmo mesmo. É só que faz tempo que eu não sinto aquilo. Eu tenho percebido que meus risos têm saído um pouco forçados, embora não me sinta triste. Pedi um pouco do humor, eu acho. E tenho me achado tão desinteressante, tão mulher-padrão, como aquilo que sempre abominei me tornar. Até psicoterapia eu tenho feito! Pelo menos não comprei um Honda Fit... Aliás, decidi que vou andar de Palio velho até ele começar a ficar torto. Só de birra. Ultimamente eu peguei um abuso de carrão, de dinheirão, de pessoas bem vestidas e cheirosas... E quando eu vejo as pessoas andando na rua, descendo do ônibus, eu quase sinto inveja. Não, não é uma hipocrisia burguesa. Eu não quero andar de ônibus de novo, não quero passar uma noite com dez reais. É só que às vezes me parece que naquele tempo eu era tão mais eu... Eu e o Manu, a gente era tão nós... Era tudo tão particular, tão único, meu quarto, meu Celta velho, minha noite, minhas palavras. O mundo era todo meu... Agora parece que nem minha casa é minha, minhas roupas não são minhas, nem meu pensamento é meu. Eu peguei tudo emprestado de alguém que me parecia mais inteligente, interessante e legal, mas essa pessoa, no final das contas, era chata, chata, chata. Eu me perdi. Pronto, o vinho fez efeito ao revez, estou aqui chorando de fazer biquinho e me sentindo ainda mais boba do que quando comecei. Pelo menos eu acho que esse choro é meu. Pelo menos parece. No último ano eu fiquei com vergonha de ser histérica, eu queria ser calma e serena. Todo mundo acreditou, até eu acreditei. Agora, Ana is back. Eu só preciso sentir de novo, sentir aquilo. Eu ainda estou muito sob controle, e isso não sou eu. Primeiro eu pensei que precisava de psicoterapia. Eu achei que faltava o HPAP e agora estou lá. Depois achei que não dava certo com consultório, então parei. Mas ainda não voltei a ser eu, não eu daquele jeito. Eu não estou mais pegando fogo. Eu fui lá na sala fazer carinho na Brigite. Estou magoada porque ela não quer ficar aqui comigo. A Brigite me faz sentir muito eu, é por isso que eu gosto de ir ao parque com ela. Eu morro de rir sozinha quando ela me olha com aqueles olhinhos arregalados quase pedindo para eu jogar a bola. Que boba eu sou quando sou eu mesma... As pessoas devem passar me achando meio idiota, mas eu acho tão bom que nem ligo. E olha que coisa difícil para mim é não me importar. Está chovendo e eu estou achando que foi para mim. Chuva no final de maio deve ser um presente para eu me sentir melhor. Então eu acho que vou me acalmar, terminar de tomar só essa tacinha de vinho e deitar na minha cama quentinha. Com a Brigite.

12 Abril, 2009

Arrancada de mim

Um comentário anônimo me tirou da masmorra. Que bom, que bom... Eu andava num sono tão comprido e triste que havia me esquccido daqui... Esse blog nasceu de tanta angústia que essa meia-morte conseguiu roubá-lo de mim. Eu tinha me esquecido! Puxa... Eu tinha me esquecido... Esqueci-me de mim, esqueci como se ama, esqueci como se chora. Eu andava tão esquecida! E triste... Eu andava tão triste que não lembrava nem como é chorar... Nossa, eu andava tão triste! Agora meu coração ficou apertadinho de ver tanto de mim esquecido em um sítio perdido na internet... E alguém se lembrou assim, sem querer. Pluf!, S.G.B. lembrou-se de mim numa aula de Ricardo Reis. Que triste, eu não lembrei. Eu não lembrei de cuidar desse pedacinho da minha alma que fica aqui. Eu me esqueci de mim.

29 Outubro, 2008

Como Transformar Congressos em Utensílios Domésticos: Um Guia Prático

Eu decidi não ir ao Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Quanto me custou essa decisão! Vou ser bem honesta: congressos são um saco. Nada mais enfadonho do que ouvir pretensos deuses da medicina, donos da verdade científica e profundos conhecedores do cérebro humano. Eles são tão chatos! Até hoje, lembro de uma ou duas palestras que assisti do início ao fim e gostei. As outras me fazem cabecear como o Hugo nas aulas da UnB. Fora que a inscrição estava mais de mil reais! MIL REAIS! Será que aquele povinho acha que eles são dignos de mil reais de cada cabecinha pensante (ou não...) apenas para ouví-los vomitar discursos vendidos em cima delas? Vendidos sim. Ou alguém aqui ainda acredita que os psiquiatras (e médicos em geral) são mesmo idealistas do bem que sonham em sanar a dor e que não se deixam levar pelos presentinhos dos laboratórios? Hoje eu ganhei um potinho de marca-textos do Frontal, a coisinha mais linda. E o vinho do dia do médico? E das inscrições pagas, as passagens pagas e os simpósios pagos por laboratórios, o que dizer? É, eles devem mesmo ser legais e preocupados com o progresso científico, eu é que sou ingrata e não consigo reconhecer.

Mas não vou ficar aqui falando de laboratórios, não é meu estilo esse discurso revolucionário. Aliás, discursos revoltadinhos me irritam. Eu decidi não ir ao congresso. Pensei durante tempos, cheguei a ligar para alguns representantes (vergonha, vergonha) pedindo que pagassem as inscrições, mas já estava em cima da hora. Resolvi postergar minha decisão até o dia da abertura. Só que à vespera recebi a notícia de que voltaria para o meu hospital e não quis estragar minha felicidade me curvando aos pés de um monte de gente chata. É claro que ainda me torturei um pouco com a idéia de que perderia a oportunidade de me atualizar passivamente, mas isso foi facilmente resolvido com a promessa interna de assinar uma revista científica. E daí se não assinei? No final, economizei mil reais que foram imediatamente convertidos em um rack novo para a minha sala. E no lugar de revistas científicas, estou lendo Vestígios do Dia, que é lindo, lindo.

Domingo meu coração se partiu de novo no meu plantão de estréia. Não aconteceu nada além das mazelas de todo dia, mas quem com o mínimo de sensibilidade pisa no chão imundo da enfermaria do São Vicente sai com o coração pelo menos dolorido. E foi bom estar novamente naquela ebulição humana, embora tenha trabalhado as doze horas seguidas com apenas uma ligeira pausa para engolir o almoço insosso da Sanoli, regado com colheres de pimenta para difarçar. Busquei a mamãe no aeroporto com a cabeça enorme e as pálpebras como chumbo, mas com um sentimento bom a que não sei dar nome. E que recompensa ouvir do papai que depois de tudo ainda estava cheirosa! Deve ser o cheiro de estar viva novamente.

18 Outubro, 2008

Salva por REM

Meus últimos meses foram em branco, mas REM me salvou. Digo, para ser mais justa, REM, Coldplay e Manu. É que eu achava que era tudo culpa do último, o Manu. Então, em um dia de saco cheio (ou de encheção de saco, depende do lado em que se estiver), joguei toda essa pretensa culpa em cima do marido e ele me disse: "Diminuta, do mesmo jeito que você fala de mim, tem coisa sua que eu não esperava, tipo você gostar de dinheiro, viver em pânico com medo de um dia ter que andar de ônibus". Foi bem assim que ele me falou. Aí eu abri os olhos. Eu devia ter prestado atenção e entendido que meu maior risco não era virar uma mulher de ciência, mas uma mulher de finanças. Porque ter um Honda Fit nunca foi minha prioridade e de uns tempos para cá eu só pensava nisso e em uma cobertura em Águas Claras. Tolice, tolice, bobinha. Na verdade, o que eu sempre quis foi uma casa cheia de cachorro, um marido sem noção e uma garrafa de vinho. Seco. É que eu ganhei uma garrafa dos representantes de laboratório pelo dia do médico que parece um mel. Mas como eu decidi tentar resgatar o que eu realmente sou (e isso ficou perdido uns oito meses atrás), abri a garrafa no meio de sábado à tarde e antes de oito horas já estou mais para lá do que para cá. E deixei para lá a história de Honda Fit e cobertura, vi que o que eu quero mesmo é o tal marido, a cachorra que já tenho e o vinho (não esse, já disse, quero seco). Sem querer, eu me dei conta que estava subindo e me apoiando naquela velha história da imagem (história essa que para vocês é nova, mas para mim vem de longa data; explico: "há sempre uma outra pose por trás de quem posa"; sei que não ficou bem explicado, mas é que seis anos de história jamais ficam claros em três linhas). Depois que o já citado marido falou de mim com tanta propriedade, catei os cds velhos do REM e do Coldplay e liguei em volume máximo no meu carro, com os dois vidros abertos, e meus olhos se encheram de lágrimas quando vislumbrei um titico do que já foi de mim. Peguei também uma cesta de missangas e me pus a fazer um colarzinho bem colorido, como gostava há uns mil anos atrás. Ah, quase fui injusta, fiz uma sopa ao som de Garbage ensurdecedor e ela ficou tão gostosa que comi também no dia seguinte, às pressas, antes da reunião no HPAP que estava para acontecer e me revelar que seria lá que meu futuro se daria, no lugar onde me senti melhor em toda a minha vida. E começou a se fazer uma bagunça na minha cabeça, ela se encheu de dúvidas e tristezas e meu coração passou a se acelerar sem motivo, como era antes, antes de eu virar uma mulher de finanças que entende de bolsas de valores, juros e aplicações, dorme e acorda com a mesma serenidade e mantém o equilíbrio. Depois disso, eu percebi que um tantinho do que eu sou está voltando para mim. Viciei em Yes do Coldplay, que já ouvi seis vezes hoje (sem contar essa que está tocando agora e as que devem se suceder até eu terminar de escrever). Meus dedinhos voltaram ansiosos para o Blogspot porque finalmente tinham o que dizer, ainda que sejam bobagens e papos de bêbada. Percebi que preciso de alguém que me mostre a imaturidade, a inconsequência, porque tenho uma tendência irresistível a ser velha, velha, velha como nasci. Yes toca pela sétima vez no headphone. O Manu me diz que tem o show de não se quem não sei onde e eu aceito ir. Sempre foi assim e é assim que é bom. Seja lá o que for, lá terei o Manu, a Mag, a "majestade" Rodrigo e um copinho de caipirosca que farão da minha noite a mais linda. Hoje eu disse a ele, com toda honestidade: "as pessoas que mais amo na vida são o papai, a mamãe, meus irmãos, a vovó, você a Brigite". Por que precisaria de Honda Fit e cobertura? Estou voltando a sentir...