Deve estar faltando alguma coisa, porque eu resolvi tomar um vinho para ver se sentia
aquilo, aquele quentinho de bem estar gostoso que ele dá. E não senti... Já estou até meio tonta, mas
aquilo não apareceu. Está tudo bem, minha vida está toda legal. Não tenho do que me queixar, mesmo mesmo. É só que faz tempo que eu não sinto
aquilo. Eu tenho percebido que meus risos têm saído um pouco forçados, embora não me sinta triste. Pedi um pouco do humor, eu acho. E tenho me achado tão desinteressante, tão mulher-padrão, como aquilo que sempre abominei me tornar. Até psicoterapia eu tenho feito! Pelo menos não comprei um Honda Fit... Aliás, decidi que vou andar de Palio velho até ele começar a ficar torto. Só de birra. Ultimamente eu peguei um abuso de carrão, de dinheirão, de pessoas bem vestidas e cheirosas... E quando eu vejo as pessoas andando na rua, descendo do ônibus, eu quase sinto inveja. Não, não é uma hipocrisia burguesa. Eu não quero andar de ônibus de novo, não quero passar uma noite com dez reais. É só que às vezes me parece que naquele tempo eu era tão mais eu... Eu e o Manu, a gente era tão nós... Era tudo tão particular, tão único, meu quarto, meu Celta velho, minha noite, minhas palavras. O mundo era todo meu... Agora parece que nem minha casa é minha, minhas roupas não são minhas, nem meu pensamento é meu. Eu peguei tudo emprestado de alguém que me parecia mais inteligente, interessante e legal, mas essa pessoa, no final das contas, era chata, chata, chata. Eu me perdi. Pronto, o vinho fez efeito ao revez, estou aqui chorando de fazer biquinho e me sentindo ainda mais boba do que quando comecei. Pelo menos eu acho que esse choro é meu. Pelo menos parece. No último ano eu fiquei com vergonha de ser histérica, eu queria ser calma e serena. Todo mundo acreditou, até eu acreditei. Agora, Ana is back. Eu só preciso sentir de novo, sentir
aquilo. Eu ainda estou muito sob controle, e isso não sou eu. Primeiro eu pensei que precisava de psicoterapia. Eu achei que faltava o HPAP e agora estou lá. Depois achei que não dava certo com consultório, então parei. Mas ainda não voltei a ser eu, não eu daquele jeito. Eu não estou mais pegando fogo. Eu fui lá na sala fazer carinho na Brigite. Estou magoada porque ela não quer ficar aqui comigo. A Brigite me faz sentir muito eu, é por isso que eu gosto de ir ao parque com ela. Eu morro de rir sozinha quando ela me olha com aqueles olhinhos arregalados quase pedindo para eu jogar a bola. Que boba eu sou quando sou eu mesma... As pessoas devem passar me achando meio idiota, mas eu acho tão bom que nem ligo. E olha que coisa difícil para mim é não me importar. Está chovendo e eu estou achando que foi para mim. Chuva no final de maio deve ser um presente para eu me sentir melhor. Então eu acho que vou me acalmar, terminar de tomar só essa tacinha de vinho e deitar na minha cama quentinha. Com a Brigite.